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Vitória: a bravura muito além da ficção de uma mulher contra o poder paralelo carioca

Vitória: a bravura muito além da ficção de uma mulher contra o poder paralelo carioca
Coragem solitária – Fernanda Montenegro interpreta idosa que registra imagens do tráfico carioca e as entrega para jornalista

O ano era 2005, a cidade, maravilhosa. Porém, a calmaria da rotina de uma senhora de oitenta anos seria interrompida pelo som de tiros de metralhadora, disparados por bandidos. Este poderia ser o princípio de alguma notícia sobre bala perdida ou quem sabe, até o início de uma das histórias de Nelson Rodrigues. Mas é a vida real, nua e crua, representada em Vitória, longa brasileiro dirigido por Andrucha Waddington, protagonizado por Fernanda Montenegro e baseado no caso real da alagoana Joana Zeferino da Paz (1925-2023), que entre 2003 e 2004, registrou em fitas VHS as atividades de traficantes, da janela do seu próprio apartamento. 

Entre os acontecimentos reais e a estreia nos cinemas brasileiros, a produção não passou somente pelo teste do tempo, afinal, duas décadas se transcorreram, mas também por uma série de desafios que quase impossibilitaram a conclusão do projeto. Logo após a criação do roteiro por Paula Fiuza e o início das gravações em 2022, Breno Silveira, cineasta responsável pelo longa, faleceu de infarto, aos 58 anos. Foi então que Andrucha entrou em cena, assumindo a direção e dando continuidade ao filme do amigo. Três anos depois dessa trágica perda, finalmente Vitória está disponível no Globoplay, após uma temporada de sucesso nos cinemas brasileiros.

Na história, Fernanda dá vida a Dona Nina – Maria Josefina – uma idosa aposentada que vive sozinha em um pequeno apartamento localizado na fictícia Ladeira da Misericórdia, em Copacabana. Quando rajadas de tiros vindos da comunidade ao lado da Ladeira se tornam constantes, criando um rastro de violência na vizinhança, Nina passa a registrar com uma filmadora a rotina de uma facção local, com o intuito de colaborar com a polícia, mesmo que isso coloque sua própria integridade em risco. 

A direção característica de Andrucha Waddington por exaltar elementos brasileiros dá o toque de familiaridade necessário ao filme, sem nunca cair no superficial. Com um trabalho detalhista de cenografia e ambientação, o espectador é transportado imediatamente ao Rio do início dos anos 2000, com lojas de equipamentos fotográficos espalhadas por Copacabana (em uma dessas, a protagonista adquire a filmadora que será sua arma contra a impunidade), além do próprio apartamento de Dona Nina, repleto de móveis e objetos antigos de porcelana, tal qual podemos nos lembrar com carinho de encontrar na casa de uma avó. 

Outro ponto alto do longa é a maneira sutil mas poderosa de retratar a solidão na terceira idade. Sem filhos ou familiares, a personagem vive a maior parte do tempo sozinha, saindo de casa somente para ir ao mercado, caminhar no calçadão e visitar seus clientes. Porém, a falta de alguém para conversar está sempre ali pairando, como um fantasma, que outros personagens não parecem notar à primeira vista. 

Fernanda Montenegro é a grande força motriz do filme. Com uma atuação que transmite fragilidade, inocência, coragem e inquietação perante os acontecimentos na mesma medida, a atriz desperta admiração e também torcida por sua segurança em quem assiste à obra, afinal, em nenhum momento a senhorinha parece perceber o tamanho do perigo que corre, e mesmo se percebe, ela não se intimida. Seu intuito, por vezes até ingênuo, é apenas um: ajudar a fazer justiça com os poucos recursos que possui. 

Fica a cargo de Alan Rocha, que interpreta o jornalista Flávio Godoy (na vida real, Fábio Gusmão foi o responsável pela reportagem que revelou as filmagens), trazer à protagonista o lado mais racional da situação e também fazer a ponte necessária entre ela e a polícia que será responsável por sua proteção. Sua atuação é mais minimalista, visto a rapidez com que as coisas acontecem após o conteúdo das gravações vir à tona, mas não menos potente. Dividido entre o trabalho e a necessidade de proteger sua fonte, Alan é mais contido, e muitas de suas preocupações com a idosa são transmitidas mais pelo olhar e pelos gestos, tendo que convencê-la a aceitar as condições que implicam na publicação da matéria. 

Joana da Paz e Fábio Gusmão: os personagens
de Vitória da vida real

Destaque também para o ator mirim Thawan Lucas, que dá vida a Marcinho, menino que mora na Ladeira da Misericórdia, e para Linn da Quebrada, que faz Bibiana, vizinha de Dona Nina. Ambos os atores imprimem, em diferentes momentos da narrativa, os outros impactos da presença do tráfico, como o recrutamento de menores e as vítimas feitas por balas perdidas, escancarando os efeitos colaterais que vão além dos tiroteios e da perturbação pública.

Diferente do fantasma da solidão de Nina que quase não é percebido pelos demais, o da violência urbana assombra a todos os personagens da trama em algum grau, transpassando a tela e alcançando os espectadores, gerando comoção pela veracidade da história – de Dona Nina e de tantas pessoas afetadas até hoje – e um sentimento de alívio breve, não porque o problema é resolvido, mas porque a coragem de uma cidadã comum é capaz de mobilizar a sociedade para o bem. 

Vitória é um bom trabalho de adaptação de uma história verdadeira e certamente funciona como dupla homenagem: à Fernanda Montenegro, por seu legado como atriz e à Dona Joana da Paz, por sua rara coragem.

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