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Hacks: por que a série da HBO que mistura drama “CLT” com comédia é uma das melhores obras dos últimos anos

Hacks: por que a série da HBO que mistura drama “CLT” com comédia é uma das melhores obras dos últimos anos

A série Hacks, da HBO, chegou ao fim após 5 temporadas bem intensas. Intensas de uma forma que me fez maratonar as 5 temporadas em pouco mais de 1 mês assistindo. Poucas séries recentes conseguem equilibrar tão bem humor, drama de relações de trabalho e crescimento pessoal, e é exatamente isso que faz de Hacks uma das produções mais elogiadas da HBO nos últimos anos.

Do que se trata a série Hacks?

Hacks acompanha duas mulheres em momentos opostos da carreira. Deborah Vance é uma comediante de stand-up bastante famosa que vê sua carreira em queda após anos de sucesso em Las Vegas. Do outro lado está Ava Daniels, uma roteirista e comediante que vive uma fase pós-cancelamento depois de uma piada publicada no Twitter.

As duas se cruzam quando Jimmy LuSaque, agente que cuida da carreira de ambas, media um acordo: Deborah passa a produzir conteúdo com uma visão mais atual, e Ava recupera a chance de voltar a trabalhar. Apesar da resistência inicial das duas, Deborah acaba aceitando Ava como sua redatora, e é esse encontro que dá início a toda a trama da série.

Por que Deborah Vance é um dos personagens mais complexos da TV recente?

Deborah não é uma pessoa fácil, e em vários momentos da série ela te faz odiá-la, pela forma egoísta como age pensando exclusivamente na própria carreira, seja com Ava, com seus funcionários ou até com a própria filha. É esse tipo de construção, longe do maniqueísmo fácil, que torna Deborah Vance um dos personagens mais interessantes da comédia dramática recente: brilhante, generosa em certos momentos, mas plenamente capaz de descartar qualquer pessoa se isso significar salvar a carreira.

Como é a relação entre Ava e Deborah em Hacks?

Ava tem uma personalidade forte, posicionamento político bem evidente e também carrega o drama de superar o término com a ex-namorada. É essa combinação, irreverência, vulnerabilidade e teimosia, que faz o embate dela com Deborah funcionar tão bem.

Se existe um motivo para a série prender o público por cinco temporadas, é a evolução dessa relação. O que começa como um acordo profissional desconfortável, uma comediante veterana que despreza a nova geração e uma roteirista jovem que julga o humor “ultrapassado” da outra, vai se transformando, temporada após temporada, em algo parecido com afeto genuíno, sem nunca perder o atrito.

Débora ensina Ava sobre resiliência e sobre como sobreviver numa indústria implacável; Ava, por sua vez, empurra Deborah para fora da zona de conforto, questiona seus privilégios e a força a encarar coisas que vinha evitando havia décadas, inclusive a relação com a própria filha. É uma dinâmica de poder que se inverte constantemente, e isso é o que mantém a série viva até o fim.

Por que Hacks é considerada uma série sobre o mundo do trabalho (“drama CLT”)?

O que torna Hacks tão especial é como ela transforma uma relação de trabalho em material dramático de primeira linha. Grande parte dos conflitos da série nasce de coisas extremamente banais no dia a dia de qualquer relação CLT: hierarquia, crédito por ideias, medo de ser demitido, a linha tênue entre reconhecimento profissional e amizade real.

Ava passa boa parte da série numa posição que qualquer pessoa que já teve um chefe difícil reconhece: tentando equilibrar admiração, ressentimento e a necessidade de manter o emprego. A série nunca romantiza isso — ela mostra o custo emocional de trabalhar para alguém como Deborah, e ao mesmo tempo entende por que as pessoas continuam voltando.

Como a comédia é construída na série?

Sendo uma série sobre duas comediantes, era natural que o humor fosse construído em cima do ofício delas — e Hacks faz isso com uma naturalidade rara. A trama mostra o processo de criação de piadas, os testes de material em pequenos clubes, as reescritas de roteiro e a tensão constante entre o que é engraçado e o que “funciona” comercialmente. Isso dá à série uma camada meta interessante: ao mesmo tempo em que nos faz rir, ela também comenta sobre como o riso é fabricado.

Mas o que mais chama atenção é como a comédia de Hacks sempre vem acompanhada de dor. As piadas de Deborah sobre o próprio fracasso, o divórcio e a filha distante são material de stand-up, mas também são feridas abertas. Ava usa o humor como escudo contra o cancelamento e contra a própria insegurança. Rir, em Hacks, é quase sempre uma forma de sobreviver a alguma coisa.

O final de Hacks entrega o que a série prometeu?

Sem entrar em spoilers pesados: depois de cinco temporadas construindo uma relação tão complexa, o desfecho tinha a missão difícil de não trair tudo o que foi plantado. Hacks consegue fechar esse ciclo respeitando tanto o crescimento individual das duas protagonistas quanto a bagunça que é qualquer relação humana de verdade — sem finais fáceis, sem redenção barata.

Vale a pena assistir a série da HBO?

Hacks é, no fundo, uma série sobre reinvenção — profissional e pessoal. Fala sobre envelhecer numa indústria que despreza mulheres depois de uma certa idade, sobre a violência (às vezes sutil, às vezes explícita) do cancelamento, e sobre como carreira e identidade se misturam até você não conseguir mais separar uma coisa da outra. E faz tudo isso rindo,o que, no final das contas, talvez seja o maior mérito da série: te fazer sentir a dor sem nunca perder o senso de humor sobre ela.

Com 5 temporadas disponíveis na HBO Max, Hacks é daquelas séries que merecem ser vistas de uma só vez e discutidas depois, com calma, com quem também já chorou de rir e de tristeza com Deborah Vance e Ava Daniels.

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