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Blue Jay: a pérola escondida da Netflix que entende de saudade melhor do que qualquer filme romântico

Blue Jay: a pérola escondida da Netflix que entende de saudade melhor do que qualquer filme romântico

Existe uma categoria de filme que o algoritmo da Netflix nunca vai te recomendar. Não porque seja ruim — muito pelo contrário. Mas porque não tem explosão, não tem franquia, não tem universo expandido, não tem nada que o sistema entenda como motivo para colocar na sua frente. Blue Jay é exatamente esse filme. E se você não foi atrás, provavelmente nunca chegou até ele.

Esse texto existe para mudar isso.

O filme

Blue Jay é um filme de 2016, dirigido por Alex Lehmann e escrito por Mark Duplass, que também estrela a produção ao lado de Sarah Paulson. A premissa cabe em duas linhas: dois ex-namorados do colégio se reencontram inesperadamente na cidade natal, redescobrem o vínculo que tinham e encaram um arrependimento em comum.

Não tem reviravolta de roteiro. Não tem trilha dramática inflada. O filme tem 80 minutos de duração, foi filmado em sete dias, é rodado inteiramente em preto e branco e conta com apenas três atores. No papel, parece pouco. Na tela, é avassalador.

O que Blue Jay entende sobre saudade

Tem um tipo de saudade que os filmes românticos convencionais não sabem retratar. Não é a saudade de uma pessoa — é a saudade de quem você era quando estava com ela. Da versão de você que existia antes de tudo que veio depois. Essa é a saudade que Blue Jay conhece de cor.

O filme evoca a experiência de revisitar lugares e pessoas do passado com olhos completamente diferentes — a poesia agridoce de acumular experiências e conseguir enxergar de uma perspectiva que os olhos inexperientes simplesmente não alcançavam. Jim voltou para a cidade para vender a casa da mãe que morreu. Amanda está lá de passagem para visitar a irmã grávida. Nenhum dos dois planejou se encontrar. Nenhum dos dois estava preparado.

O que começa como uma nostalgia divertida — apelidos antigos, piadas internas, lugares que eles lembram e querem revisitar — tem a capacidade de levar rua abaixo em questionamentos muito mais difíceis: quem eu era antes? O que eu escolhi não contar? E é nesse movimento, lento e inevitável, que o filme parte o coração.

Há dois tipos de pessoa que assistem Blue Jay: as que saem deprimidas porque o amor é, em última análise, uma busca que só leva à dor e ao arrependimento — e as que saem felizes porque, apesar de toda a dor, foi lindo que aconteceu. Você vai descobrir em qual dos dois grupos está. E isso já é motivo suficiente para assistir.

Por que esse filme está soterrado na Netflix

O algoritmo da plataforma não foi feito para isso. Ele foi feito para te manter assistindo — e filmes que exigem quietude, atenção e disposição para ser atravessado por alguma coisa raramente chegam às suas sugestões. Blue Jay não tem thumbnail chamativa. Não tem nome de franquia no título. Não tem nada que grite.

Tem Sarah Paulson entregando uma das melhores atuações da carreira dela em silêncios que dizem mais do que qualquer diálogo conseguiria. Tem Mark Duplass escrevendo sobre dor com a leveza de quem passou por ela e sobreviveu. Tem uma química entre os dois que é contagiante — que imita a inocência do amor na juventude e o peso da vida na fase adulta ao mesmo tempo.

O filme tem 91% de aprovação no Rotten Tomatoes. Existe uma boa chance de você nunca ter ouvido falar dele.

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