Dois Estranhos: curta-metragem premiado e escondido na Netflix traz potente protesto contra a brutalidade policial
Quando falamos em loop temporal, este estilo de filme desperta a sua curiosidade ou afugenta? Desde Feitiço do Tempo (1993), quando o gênero se tornou popular graças a um certo Dia da Marmota, diversos diretores se arriscaram em contar histórias sobre a repetição de um único dia na vida do protagonista, e quais as consequências de sair desse looping aparentemente infinito.
Quase três décadas separam Dois Estranhos (2020), curta-metragem original da Netflix, do filme estrelado por Bill Murray, e se no princípio dos filmes estilo loop temporal a proposta era fazer rir, aqui o espectador pode se preparar para terminar o filme com um nó na garganta.

O curta retrata um dia comum na vida de Carter James (Joey Badass), um jovem designer negro, que cai em um loop temporal quando seu caminho cruza com o de um policial branco (Andrew Howard) durante uma abordagem no meio da rua. A partir deste momento, James passa a reviver o mesmo dia e seu maior desafio não será apenas enfrentar a violência policial, mas principalmente, lutar por sua própria sobrevivência.
Escrito e dirigido por Travon Free e Vencedor do Oscar de Melhor Curta-Metragem em Live Action, Dois Estranhos é livremente inspirado na morte de George Floyd, ocorrida em maio de 2020. George foi sufocado até a morte sob o joelho do policial Derek Chauvin, enquanto fazia apelos dizendo que não conseguia respirar. No dia seguinte ao assassinato, filmado e transmitido ao mundo todo, o policial branco foi demitido. Enquanto o homem negro, mais uma vez, perdeu a vida.
Ao trazer para a tela a vida corriqueira de um jovem negro sendo interropida pela brutalidade policial, o curta escolhe seguir um caminho que sabe dosar ironia, sensibilidade e revolta. Fica claro que Carter não estava na hora errada no lugar errado. Ele não faz algo ilegal ou passível de prisão. Não, ao longo de todas as suas tentativas de voltar para a casa em segurança, seu crime era apenas o de ser um homem negro. Joey Badass carrega seu protagonista com muita força e uma determinação guiada pela gentileza, pouco a pouco, se transmutando para a vontade de sobreviver perante um inimigo difícil mas não implacável.
Andrew Howard dá uma interpretação propositalmente fria e distante ao antagonista, disposto a tudo para acabar com a vida de Carter, num sádico jogo de gato e rato. Movido pela nítida certeza da impunidade, o policial parece não se importar em assassinar uma pessoa negra, e até mesmo quando as coisas entre os dois parecem caminhar para a mínima paz, o sadismo volta a imperar.

A trilha musical do filme com a canção oitentista de Bruce Hornsby, The Way It Is, complementa a mensagem do filme, mais uma vez destacando a questão da impunidade pelo refrão da música: é assim que as coisas são. Confira abaixo a letra traduzida música:
Dois Estranhos é em essência um filme manifesto, que compreende seu poder enquanto obra audiovisual e opta por invés de oferecer respostas prontas, deixar como legado uma reflexão poderosa sobre a importância das vidas negras nunca caírem no esquecimento. Até quando a crueldade policial determinará o destino da população preta?
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