Esquecida no catálogo, Flaked é uma das séries mais sinceras da Netflix
Em meio a tantos lançamentos que surgem e desaparecem rapidamente do catálogo da Netflix, algumas produções acabam sendo esquecidas antes mesmo de ganharem o reconhecimento que merecem. É o caso de Flaked, série criada e estrelada por Will Arnett que estreou em 2016 e, apesar de seu potencial, nunca recebeu a atenção devida.
Longe dos exageros e da estética frenética típica de muitas comédias atuais, Flaked aposta em um ritmo calmo, personagens imperfeitos e um olhar maduro sobre temas como recomeço, vício e autossabotagem. A série é, antes de tudo, sobre tentar ser uma pessoa melhor — mesmo quando se falha repetidamente nesse processo.
Um homem tentando parecer melhor do que é

Em Flaked, Will Arnett interpreta Chip, um homem carismático que vive em Venice, na ensolarada Califórnia. Dono de uma loja de móveis e líder de um grupo de apoio para dependentes alcoólicos, ele se apresenta como alguém que venceu o passado e vive agora uma vida equilibrada. Mas, conforme os episódios avançam, o espectador descobre que essa imagem é apenas uma fachada cuidadosamente construída.
Chip mente para amigos, manipula situações e, em vez de enfrentar os próprios erros, prefere se esconder por trás de um discurso de autoajuda e aparente controle. Aos poucos, tudo o que ele tenta esconder começa a vir à tona, mostrando o quanto é difícil sustentar uma vida baseada em meias verdades.
Essa é uma das maiores forças de Flaked: ela não se preocupa em “salvar” seu protagonista. Em vez disso, mostra com honestidade a luta constante entre o que se diz e o que se é.
A autenticidade como tema central
Em um mundo em que todo mundo tenta parecer melhor do que realmente é, Flaked se torna uma história sobre autenticidade. Chip vive de aparências — não apenas diante dos outros, mas também diante de si mesmo. Ele é o retrato de alguém que se convenceu de sua própria narrativa e precisa lidar com o colapso dessa mentira.
O resultado é uma série que fala, de forma sutil e madura, sobre o que significa ser verdadeiro em um tempo em que todos encenam versões idealizadas de si. É fácil reconhecer em Chip traços de muitas pessoas reais: aqueles que pregam autocontrole, mas vivem à beira do caos; que aconselham os outros, mas não seguem seus próprios conselhos.
Humor melancólico e humanidade imperfeita

A assinatura de Will Arnett é perceptível em cada cena. Conhecido por papéis que transitam entre o cínico e o vulnerável, o ator entrega aqui um personagem cheio de nuances. O humor de Flaked é sutil, por vezes quase invisível, brotando de situações embaraçosas ou da ironia de ver alguém se perder tentando provar que está no controle.
A série é uma “dramedy” no sentido mais puro do termo: não busca gargalhadas, mas sorrisos amargos, aqueles que surgem quando reconhecemos algo de nós mesmos nos defeitos alheios.
A estética do sol e o peso das sombras
Um dos aspectos mais interessantes de Flaked é o contraste entre forma e conteúdo. A série é filmada sob a luz dourada da Califórnia, com paisagens ensolaradas, ruas tranquilas e a brisa do Pacífico servindo de pano de fundo. Tudo parece calmo, bonito e até terapêutico.
Mas, por trás dessa leveza visual, existe um subtexto melancólico. O sol, em vez de representar felicidade, reforça o contraste entre o exterior luminoso e o interior em ruínas do protagonista. É uma metáfora perfeita: Chip vive cercado de luz, mas carrega sombras que o seguem onde quer que vá.
Esse uso visual do ambiente faz de Flaked uma experiência quase contemplativa, um retrato moderno de solidão e busca por redenção em meio à beleza superficial do cotidiano.
Will Arnett e o eco de outros personagens
É impossível assistir a Flaked sem lembrar que seu criador é também a mente por trás de BoJack Horseman, outra produção da Netflix que aborda temas parecidos — vício, culpa, autopunição e a dificuldade de mudar. Mas, enquanto BoJack usa o absurdo da animação para amplificar essas questões, Flaked as traz para um plano mais real e palpável.
Arnett parece usar Chip como uma extensão de si mesmo, como se estivesse exorcizando parte de sua própria trajetória. A atuação é contida, quase introspectiva, e isso torna o personagem mais humano e compreensível, mesmo em seus piores momentos.
Uma série sobre recomeços, não sobre redenção
O grande acerto de Flaked é que ela não se preocupa em entregar uma “lição de moral”. Não há redenção simples nem transformações milagrosas. O que existe é o processo de tentar — e falhar — em ser melhor. Chip é alguém que, apesar de todos os tropeços, continua tentando reconstruir sua vida, mesmo quando parece impossível.
Essa abordagem mais realista e menos idealizada é o que torna a série tão sincera. Ela fala sobre o esforço contínuo de ser humano, com todas as contradições, recaídas e momentos de lucidez que isso envolve.
Por que Flaked merece uma segunda chance
É curioso pensar que Flaked, uma série sobre autenticidade, tenha sido vítima da superficialidade com que muitas produções são consumidas. Em uma era de binge-watching, seu ritmo lento e reflexivo acabou afastando quem esperava algo mais ágil. Mas, para quem busca profundidade, diálogos honestos e personagens que se parecem com pessoas reais, a série é um achado.
Revisitar Flaked hoje é encontrar uma obra que envelheceu bem — talvez até melhor do que quando estreou. Sua mensagem sobre vulnerabilidade, imperfeição e a importância de olhar para dentro é mais relevante do que nunca.
Um convite à redescoberta
Em meio a tantas séries que tentam ser maiores, mais rápidas e mais barulhentas, Flaked se destaca justamente por ser o oposto. Ela é silenciosa, imperfeita e profundamente humana.
Assistir a essa produção é um lembrete de que nem sempre o que parece pequeno é irrelevante. Às vezes, as histórias mais discretas são as que mais falam sobre nós.
Gostou de conhecer Flaked? Essa é uma das séries mais sinceras e esquecidas da Netflix — e merece ser revisitada. Quer descobrir outras produções subestimadas e cheias de verdade? Fique de olho nos conteúdos do Entre Episódios.
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